ENTREVISTA | Casacadabra + Sara Vargues, vencedores Projectos para uma Educação em Arquitectura

— 24.05.2019

A proposta vencedora da chamada (open call) para apresentação de Projectos para uma Educação em Arquitectura foi "Arquitectura da diversidade" de Casacadabra + Sara Vargues.


Casacadabra é um projecto de educação em arquitectura e urbanismo para crianças. Sara Vargues é arquitecta pela Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa e mestre em cooperação internacional sustentável em arquitectura de emergência pela Universidade da Catalunha.


O colectivo responsável pela proposta vencedora fala sobre o desenvolvimento do seu trabalho e explica detalhadamente as motivações, percepções e desejos, bem como os antecedentes que conduziram à formação da equipa.



Por que decidiram participar no Open Call e como se deu a aproximação à temática?

[Sara] Um dia recebi uma mensagem da Bianca a dizer: “Olha que projecto interessante! Vamos aventurar-nos?”. E com a mensagem vinha o link para o Open Call.


Confesso que foi quase instantânea a vontade de participar, principalmente porque seria uma oportunidade de voltar a trabalharmos juntas e em temas com os quais estamos muito envolvidas academicamente, profissionalmente e até, por que não, emocionalmente. Eu e a Bianca – uma das fundadoras do Casacadabra – conhecemo-nos no mestrado em Cooperação Internacional para Arquitectura Sustentável e de Emergência, na Universidade Internacional da Catalunha, em 2017/2018.

Durante o curso, tivemos a oportunidade de trabalhar juntas por diversas vezes, em contextos de projectos urbanos e humanitários, onde as temáticas da diversidade e da igualdade de oportunidades sempre estiveram muito presentes – desde questões de género a questões de integração social, ou integração de refugiados e imigrantes nas decisões de desenho/planeamento urbano e de políticas públicas, por exemplo. Na vertente da educação de arquitectura para crianças, a Bianca e a Simone, através do projecto Casacadabra, têm vindo a desenvolver um trabalho extremamente interessante, no Brasil. Então, acreditámos que seria uma oportunidade única de trabalhar estes conceitos num projecto educativo tão enriquecedor e que poderá vir a influenciar as novas gerações na forma como se relacionam entre si e com o espaço que as rodeia.


Como se projectou, nesse sentido, a parceria com o colectivo Casacadabra? Pode falar um pouco da experiência das actividades que têm desenvolvido?

Quando vimos o Open Call em Portugal, reconhecemos que seria uma oportunidade incrível de trabalharmos juntas novamente, unindo os nossos conhecimentos em diversas áreas, como os da realidade de Portugal, os temas urbanos, de arquitectura, de diversidade e de ensino do tema para crianças. Falar sobre arquitectura – na sua vertente mais ampla e despretensiosa – sempre foi um grande prazer e ter a oportunidade de partilhar conhecimentos com outros grupos, nomeadamente não-arquitectos, é um desafio que acreditamos valer muito a pena.

Se pensarmos bem, todos os lugares/espaços que habitamos, utilizamos, experimentamos, vivenciamos, influenciam a forma como nos sentimos e nos relacionamos com o ambiente que nos rodeia, tanto a nível físico quanto social. A componente social da arquitectura é um dos temas que mais nos suscita interesse e o qual exploramos em todos os projectos que desenvolvemos, tanto a nível individual quanto de equipa.

O projecto Casacadabra, no Brasil, começou com a publicação de um livro de arquitectura para crianças, em 2016 – numa época em que não existiam publicações desta área em língua portuguesa; na verdade, mesmo hoje em dia, existem muito poucas.

Em 2018, elas lançaram um novo título, dessa vez sobre cidades e espaços públicos também para o leitor infantil.

Essas experiências abriram novos caminhos numa área que ainda está a desenvolver-se, acredito que em todo o mundo, e que possui uma demanda muito grande: a Casacadabra foi convidada para ministrar workshops e cursos de arquitectura para crianças, por exemplo, e finalizou agora em 2019 um estudo para o Conselho de Arquitectura Brasileiro (CAU/BR) sobre ferramentas de ensino urbanístico para o ensino fundamental do país. Todas estas experiências deram-nos uma base muito sólida para o desenvolvimento da proposta.





No vosso entender, por que razão é importante envolver as crianças e jovens com os espaços da sua Escola? Isto é, como se relaciona esse envolvimento com os desejos de uma arquitectura colaborativa?

Na nossa opinião, é necessário envolver as crianças e jovens com todos os espaços que habitam, usufruem e transformam.

Da escala da casa e da escola à escala do território. É necessário entender que questões materiais de calor, ruído, vento, luz ou questões imateriais de memória, identidade, afecto, por exemplo, estão directamente relacionadas à qualidade de vida e à construção de quem somos ou de quem queremos ser. A escola, durante grande parte da nossa vida, é a nossa segunda casa, o lugar onde passamos grande parte do nosso tempo, um lugar que aprendemos a reconhecer quase inconscientemente. Dessa forma, consideramos que é um excelente ponto de partida para uma primeira discussão sobre as dimensões/vertentes espaciais e sociais da arquitectura e que funcionaria muito bem como objecto de estudo.

É também uma escala mais próxima das crianças, que reconhecem os espaços e as interacções que neles se passam diariamente. A própria escolha do ambiente educativo como suporte do desenvolvimento curricular e de forma participativa é entendida como rica e estimulante pelas Orientações Curriculares, quando dizem que: “A apropriação desse ambiente por parte das crianças contribui para o desenvolvimento da sua independência, sendo que as oportunidades de participação nas decisões sobre essa organização favorecem a sua autonomia”.

Para que este processo de reconhecimento do espaço ganhe um carácter mais consciente, é necessário explorá-lo em todas as suas dimensões, aprender a entender aquilo que o espaço nos faz sentir e que podemos transformá-lo para que seja mais funcional, agradável, integrador – um lugar de todos e para todos, sem excepção.

E é neste sentido também que manifestamos e incorporamos o desejo de uma arquitectura colaborativa e participativa, uma arquitectura pensada e projectada pelo e para o colectivo.

Acreditamos que projectos comunitários, nos quais as decisões são produzidas pelos diversos actores envolvidos em torno de um propósito comum, resultam no fortalecimento da cidadania, da democracia e numa maior apropriação do espaço final pelos participantes. É essa a metodologia proposta neste projecto, que todo o processo seja colaborativo e que as crianças sejam os protagonistas da transformação do espaço e da sociedade.

Quão importante é para a vossa equipa a possibilidade de replicação da proposta por outros professores e escolas? Como antecipam a receptividade dos professores em relação às vossas propostas?

A possibilidade de replicação é de crucial importância. E por esse mesmo motivo, decidimos incorporar na proposta um guia do professor, para que sirva de ponto de partida para uma implementação autónoma e de acordo com as necessidades e exigências de cada contexto escolar. Também por isso, incorporamos as orientações curriculares – com o intuito de transformar este projeto numa oportunidade de aplicar pontos do currículo de uma forma que englobe temas de arquitectura e não apenas como actividades extracurriculares isoladas.

Toda a proposta foi pensada de forma integrada, respeitando os planos curriculares associados tanto ao pré-escolar quanto ao 1.º ciclo. São estes os dois alicerces que reforçam o potencial de replicação da proposta. E é principalmente por esse segundo ponto que esperamos a receptividade positiva dos professores. Se conseguirmos transmitir-lhes o potencial educativo dos espaços, haverá muitas oportunidades de falar sobre o tema em diversas áreas do currículo, em outros contextos e até em diferentes escalas – sair da escola e estender o projecto à rua, ao bairro, à cidade, por exemplo.


De que maneira os Objectivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) vos inspiraram e integram a proposta?

Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que delineiam a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, são os pilares para a construção de um mundo sem pobreza, mais próspero e sustentável. A arquitectura, a educação e a construção das cidades estão intimamente conectadas a essa mudança – e formar cidadãos atentos a isso é um dos caminhos para atingir essas metas. Nós citamos na proposta principalmente os objectivos 4, 5, 10 e 11 - respectivamente, Educação de qualidade, Igualdade de género, Redução das desigualdades e Cidades e comunidades sustentáveis.

Como já referimos anteriormente, temas como ‘sustentabilidade social’, ‘diversidade’, ‘integração’ e ‘inclusão’ têm vindo a fazer parte estruturante/integrante do nosso percurso pessoal e profissional, influenciando directamente a forma como nos posicionamos e desenvolvemos o nosso trabalho.

Assim, a decisão de incorporá-los à nossa proposta foi praticamente imediata e representam exactamente aquilo que pretendemos promover com este projecto, nomeadamente: uma educação inclusiva, equitativa e de qualidade; uma educação que garante, a todos, a mesma oportunidade de aprendizagem ao mesmo tempo que desconstrói possíveis barreiras culturais e de género associadas aos espaços que habitamos; uma educação que nos desperte para o mundo que nos rodeia, que nos faça respeitá-lo e que nos ajude a construir cidades e sociedades mais sustentáveis e integradas.

Ter a consciência de que a aplicação da nossa proposta ajuda a dar um passo na direcção do cumprimento dos ODS é também muito importante no que diz respeito ao estabelecimento de responsabilidades institucionais e governamentais – estimulando, quem sabe, um crescimento do projeto; para que sejam incorporados ao debate outros temas dentro da arquitectura e da construção dos espaços/das cidades, e também um crescimento de escala de actuação do projecto com o incentivo à sua sedimentação.

Como cenário ideal, imaginamos que o projecto possa ser ampliado com o intuito de abranger diferentes temáticas dentro da arquitectura e do urbanismo, e a ser implementado e replicado a nível nacional, completamente integrado e adaptado a cada contexto escolar e social - e para isso, seria ideal termos diferentes atores envolvidos no seu processo de implementação.


Quais foram os aspectos essenciais relativos às Orientações Curriculares e Aprendizagens Especiais do pré-escolar e 1.º ciclo que tomaram em consideração?

Tanto no ensino pré-escolar como no 1.º ciclo, os temas da diversidade e do olhar para o próximo são conteúdos transversais presentes nos respectivos planos curriculares, e surgem reflectidos em orientações como “Conhecer e respeitar a diversidade cultural”; “Respeitar a diversidade e solidarizar-se com os outros”; “Adquirir a capacidade de fazer escolhas, tendo em conta o seu bem-estar e o dos outros”.

Essas orientações trazem discussões como tolerância, cooperação, partilha, sensibilidade, respeito, justiça, etc. Esses temas estão directamente ligados à construção do espaço. Para além disso, há orientações como a necessidade do desenvolvimento de atitude crítica e interventiva ao que se passa no mundo que rodeia as crianças, por exemplo, a necessidade de conceber e aplicar estratégias na resolução de problemas, ou a utilização de processos científicos simples na realização de actividades experimentais. No nosso projecto, essas orientações foram cruciais no momento do desenvolvimento dos workshops, e na forma como propusemos a organização desses encontros, uma vez que, para que possam ser replicados e abraçados pelos professores, o projecto precisa conversar directamente com os objectivos curriculares. Tudo isto, tendo o/a aluno/a como protagonista da sua aprendizagem, estando presente desde a seleção do espaço a ser estudado, passando pela sua observação, análise, até às decisões de transformação do mesmo.

O que esperam de resultados?

O facto de existir a possibilidade de iniciar esta discussão junto dos mais novos já é uma grande conquista e um desafio incrível. É muito gratificante fazer parte destes processos de mudança de paradigmas, de conscientização e reconhecimento individual e colectivo, principalmente porque acreditamos que é através destes processos que podemos construir sociedades mais justas e integradas.

Também temos a certeza que aprenderemos muito com todo o processo: os miúdos são, por natureza, surpreendentes, e se formos capazes de guiá-los na área da arquitectura, ao dar-lhes voz e poder de decisão, eles acabarão por nos mostrar muito mais do que aquilo que imaginamos possível. Será uma experiência extremamente rica e gratificante para todos.



QUEM SÃO


Casacadabra é um projecto de educação de arquitectura e urbanismo para crianças, fundado por Bianca Antunes e Simone Sayegh, para transmitir conceitos técnicos e sociais da arquitectura e do urbanismo de forma leve e divertida a públicos não especializados – principalmente crianças. Para isso, faz publicações infantis, como os livros “Casacadabra: invenções para morar” (2016) e “Casacadabra: Cidades para Brincar” (2018). Também promove workshops e actividades educativas, pesquisas e diagnósticos – como um recente estudo para o CAU/BR sobre ferramentas para implementação de um ensino urbanístico nas escolas do ensino fundamental no Brasil.


Bianca Antunes é mestre em Cooperação Internacional para Desenvolvimento Urbano e Arquitectura de Emergência e Sustentável (TU Darmstadt/UIC Barcelona). É também jornalista formada e mestre pela ECA-USP (2000 e 2008) e foi editora da revista AU – Arquitetura e Urbanismo (Editora PINI).

Simone Sayegh é arquitecta formada pela FAU-USP (1995) e atualmente cursa pedagogia. Trabalha há 18 anos na difusão da arquitectura em revistas especializadas e sites para o público final, como revista AU – Arquitetura e Urbanismo (Editora PINI) e UOL.


Sara Vargues
é licenciada em arquitectura pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa (FAUTL) e mestre em Cooperação Internacional em Arquitectura de Emergência e Sustentável pela Universitat Internacional da Catalunya (UIC). Com experiência profissional nas áreas do urbanismo sustentável e resiliência urbana, acredita que através da arquitectura colaborativa é possível desenhar uma sociedade mais justa e integrada.


Créditos da imagem: "Casacadabra: Cidades para Brincar", ilustração de Luísa Amoroso