In Memoriam Nuno Teotónio Pereira

— 11.02.2016

(Foto integrante da Exposição “A Minha Janela” de Nuno Teotónio Pereira)


A morte de Nuno Teotónio Pereira no passado dia 20 de Janeiro gerou uma onda de comoção que ressoou por toda a sociedade. De tudo o que foi dito pelas muitas vozes que quiseram partilhar o seu testemunho, fizemos uma compilação que ilustra a forma sempre impressionante como a sua vida, a sua obra e a sua militância marcaram aqueles que com ele se cruzaram.



O Homem


“(Nuno Teotónio Pereira) era uma grande arquitecto e um grande homem. No fundo, fecha um ciclo”.

Eduardo Souto de Moura, RTP3, 23/1/2016


Era uma referência pela maneira como se posicionava em relação à sociedade, pela maneira como trabalhava, e pela abertura em relação aos outros. É uma perda enorme e muito triste”.

Carrilho da Graça, RTP3, 23/1/2016


A mão que segurava o lápis rejeitava a escala vaidosa ou as piruetas em betão e tijolo. Nuno Teotónio Pereira preferia as traves-mestras da dimensão humana, da integração na cidade, da modernidade sem esquecer as raízes”.

S.S.C., Visão, 28/1/2016


"O fundamental era que as pessoas se encontrassem. Teotónio Pereira teve uma vida inteira ligada à causa da felicidade das pessoas, com um sentido de comunidade".

Alexandre Alves Costa, 20/1/2016



O Cidadão Socialista


Vivi muito na casa dele, onde aprendi muito do que sei hoje e do que senti sobre a luta contra a ditadura”.

Francisco Louçã, RTP3, 23/1/2016


Foi um dos portugueses que mais se bateu contra o colonialismo e um arquitecto admirável”.

António Costa, RTP3, 23/1/2016


"Fiel à esquerda, mas, sobretudo, fiel à Liberdade, Nuno Teotónio Pereira foi um extraordinário arquiteto da cidade. Foi o Homem da cidade. O arquiteto que soube estar sempre presente, em todos os momentos, em todos os lugares. O arquiteto que soube exemplarmente mostrar que a arquitetura é de pessoas e para as pessoas. Sempre com a mesma generosidade, com a ternura que todos sempre lhe reconheceram".

Mensagem de Condolências de Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, 20/1/2016


Uma grande figura da arquitectura portuguesa nos anos 50, 60 e 70 e mesmo depois, mas uma grande figura da resistência católica, democrática e no caso dele, socialista, à ditadura, que muito novo se empenhou na habitação social e teve, em conjunto com Nuno Portas ou sozinho, um papel muito importante na viragem da política de habitação numa visão social”.

Marcelo Rebelo de Sousa, Rádio Renascença, 20/1/2016



O Católico Progressista


Foi talvez o nome mais proeminente do catolicismo progressista, tendo estado presente em todas as suas iniciativas, desde a Cooperativa Pragma e o apoio ao bispo do Porto, até às vigílias da igreja de São Domingos e da Capela do Rato. A partir da sua casa de Marvão, ajudou numerosos oposicionistas a passar a fronteira, fugindo à guerra colonial e à ditadura. Esteve preso quatro vezes”.

José Pedro Castanheira, Expresso, 22/1/2016



O Mestre


O ateliê dele na Rua da Alegria era conhecido como "a sacristia". Todos passaram por lá, arquitetos ou não, por aquelas salas onde se desenhava à mão em estiradores de tampo inclinado. Nuno Teotónio Pereira era o mestre que catalisava a criatividade e as ideias novas e que não concebia o trabalho sem partilha”.

Ana Sousa Dias, Editorial Diário de Notícias, 21/1/2016


Deve-se muito ao arquitecto Nuno Teotónio Pereira. Deve-se enquanto arquitecto, enquanto homem, muito enquanto homem. Mesmo nos seus momentos mais difíceis nunca deixou de estar ligado aos arquitectos de alma e coração e ensinou-nos muito. Foi alguém que formou muitas pessoas, não nas universidades, mas nos seus escritos, nas suas conversas, na sua forma de olhar a profissão”.

João Santa-Rita, Presidente da Ordem dos Arquitectos, RTP3, 20/1/2016


Ele foi o meu mestre".

Nuno Portas em entrevista à TSF, 15 Outubro 2015



O Arquitecto e a Cidade


A estatura ética que lhe foi reconhecida surge a par do brilhantismo que levou o seu nome a destacar-se na arquitetura, assumindo um papel capital na modernização do rosto do país, assinando edifícios emblemáticos que estão espalhados um pouco por todo o território”.

Diogo Vaz Pinto, Jornal Sol, 22/1/2016


O Franjinhas na altura apareceu como um escândalo. Era altamente inovador e corajoso

Siza Vieira, RTP3, 23/1/2016


[A propósito do Franjinhas] Nuno Teotónio Pereira teve esta capacidade de fazer a ruptura, mas também ser aceite no tecido da cidade”.

Sara Belo Luís, SIC Notícias, 21/1/2016


Nuno Teotónio Pereira dizia que o edifício com que mais se identificava era o seu 'Franjinhas', em Lisboa, que lhe 'valeu um dos quatros Prémios Valmor que recebeu. Resumia a forma como toda a arquitetura devia ser: "despojada" e "sem ornamentos", feita para "atender às necessidades e aos problemas" das pessoas”.

Ana Maria Ribeiro, Correio da Manhã, 21/1/2016


Foi o grande pensador da Arquitetura em Portugal. O primeiro a refletir sobre a sua multidisciplinaridade e sobre a sua estreita relação com o desenvolvimento do país, quer a nível social, quer económico. E deixou obra feita. Muita e muito premiada”.

Alexandra Carita, Expresso, 21/1/2016


Ao longo de uma carreira notável, várias vezes galardoado com os mais prestigiados prémios, Nuno Teotónio Pereira foi um dos maiores arquitetos portugueses do século XX, autor de edifícios emblemáticos que nos fascinam pela rigorosa beleza do seu traço”.

Mensagem de condolências de Cavaco Silva, Presidente da República, 20/1/2016



O Projecto Social


Foi na arquitetura e na cidade que procurou dar corpo aos seus ideais de justiça e fraternidade. Detestava a "coligação tenebrosa" de preconceitos, anacronismos e avidez de lucro. Sabia que a arquitetura por si só não resolve tudo, mas pode trazer, como escreveu um dia, "aterradoras somas de infelicidade e sofrimento".

Helena Roseta, Diário de Notícias, 22/1/2016


Sobretudo nos anos 60 e 70 até ao 25 de Abril, fez sempre um trabalho colectivo não só com os colaboradores mas com as pessoas que queriam mudar as políticas do Estado Novo e depois toda a política de habitação do Estado. Ele foi dos elementos mais importantes. É um homem múltiplo que ajudava os outros”.

Nuno Portas, Rádio Renascença, 20/1/2016


(...) temos a sorte de desfrutar em plena Avenida da Liberdade das "Casas da Caixa", como ficaram conhecidos os blocos habitacionais de quatro pisos construídos pela Federação das Caixas de Previdência. Da autoria do arquiteto Nuno Teotónio Pereira, que dedicou parte da sua carreira à habitação social, foram inauguradas em 1951. Numa altura em quase tudo em Braga era obra de Moura Coutinho, o desenho das "Casas da Caixa" era inovador, em particular na organização dos compartimentos das diversas tipologias que oscilavam entre o T3 e o T6!”.

Luís Tarroso Gomes, Diário do Minho, 23/1/2016


Na hora da morte de gente com tamanha relevância é comum terminar-se escrevendo que ficou um vazio. No caso de Nuno Teotónio Pereira, fica um cheio. Não apenas pelo exemplo de uma vida cheia, mas também porque o seu espaço não desaparece. Perpetua-se na obra e nas lutas que estão longe de estar vazias de conteúdos ou de ficar sem combatentes”.

Tiago Mota Saraiva, Jornal I, 25/1/2016



O melhor entre os melhores


Foi um dos arquitectos mais importantes da geração moderna. Foi ao mesmo tempo um cidadão com provas dadas na resistência antifascista, foi um homem íntegro, um arquiteto que sempre reuniu grandes equipas à sua volta, que distribuía autoria por todas essas equipas, um arquitecto, no entanto, de uma grande serenidade. A sua arquitectura é toda ela feita a pensar nas pessoas que a vão habitar. Fica na nossa memória um homem muito bom, uma pessoa muito querida, muito amiga, muito terna”.

Manuel Graça Dias, RTP3, 20/1/2016


Nuno Teotónio Pereira viveu o exercício da profissão como um militante. A sua morte encerra uma das fases mais heroicas da arquitectura portuguesa. (...) Militante anti-fascista, cristão progressista, moderno convicto, cultor da arquitectura popular, Teotónio Pereira foi a face mais visível de uma profissão que se empenhou socialmente e de forma revolucionária, sem necessitar de abdicar de “ser arquitecto”, isto é, recorrendo ao desenho, ao projecto e à construção”.

Ana Vaz Milheiro, Público, 20/1/2016


«A arquitectura de Nuno Teotónio é uma obra em continuidade. Ele não é capaz de fingir. Por formação e educação, tinha uma ligação culta à tradição, às casa boas da família, cresce com isto, que também o marca, e, embora acerte o passo com a modernidade, nunca usa de uma forma dogmática o Corbusier. É um homem que integra as coisas e depois não as segue à letra. Quando o Portas entra no atelier vai ajudar esse processo, fazem uma dupla infernal. Eram absolutamente complementares e fizeram a melhor arquitetura que alguma vez se fez em Lisboa».

Ana Tostões, Expresso, 20/1/2016