ENTREVISTA | Pólo de Saúde de Carcavelos: "o espaço público tornou-se o tema do nosso projecto"

— 18.07.2018

Da esquerda para a direita: arquitectos Simão Botelho, Susana Ribas, Mário Serrano, Margarida Fonseca e Joana Jordão




Um colectivo de cinco amigos "de longa data" juntou-se para concorrer ao Concurso para o Pólo de Saúde de Carcavelos, promovido pela Câmara Municipal de Cascais com a assessoria técnica da OASRS e que recebeu 40 candidaturas.

A proposta de Simão Botelho, Margarida Ferreira da Fonseca, Mário David Serrano, Joana Jordão e Susana Ribas ganhou o 1º prémio, segundo o júri, pela "boa solução de articulação do edificado com os espaços exteriores de utilização pública, solucionando a relação com as duas realidades existentes: a via rápida a norte e a zona residencial a sul.”

O trabalho dos cinco amigos ofereceu, ainda segundo o relatório do júri, "um Centro de Saúde com um conceito e características distintas, permitindo e potenciando o uso dos seus espaços interiores e exteriores de forma integrada e articulada, por todos, utentes, habitantes da zona ou meros visitantes.”

Colocamos aos arquitectos autores um conjunto de questões que ajudam a compreender a filosofia e a visão que está subjacente à proposta vencedora.


Pergunta- Os arquitectos autores da proposta não constituem um atelier formal. Como é que se encontraram para fazer este projecto?


Resposta - Um concurso é sempre uma excelente oportunidade para se testarem novas ideias, existindo uma grande liberdade projectual. Somos um colectivo que, na sua génese, se distancia da ideia de produção de arquitectura centrada num só autor, mas que partilha uma mesma forma de ver a profissão. Os concursos em co-autoria permitem um debate de ideias entre pessoas, muitas vezes amigos e colegas, obrigando-nos a falar sobre aquilo que nos interessa e fascina. Essa partilha obriga-nos a reflectir e a pôr em questão os nossos ideais, algo que muito valorizamos.

Por isso mesmo, aproveitámos o facto de ter sido lançado este concurso para o Pólo de Saúde de Carcavelos para se juntarem 5 amigos, com experiências profissionais díspares, com o intuito de discutir sobre arquitectura e o papel da mesma na sociedade contemporânea.

A encomenda pública, em Portugal, é algo que quase desapareceu nos últimos anos, havendo muito poucos concursos abertos, anónimos e a uma escala confortável para ateliers jovens. No nosso caso, trata-se de um colectivo de jovens arquitectos que procuram estabelecer-se por conta própria. Ganhar este concurso representa uma boa oportunidade de vir a construir um edifício público de média escala e dá-nos a confiança para continuar a trabalhar nos moldes da partilha. Pertencemos a uma geração que não está vinculada a um trabalho para toda a vida e, por isso mesmo, temos uma lógica de trabalho muito diferente: que se move pelos desafios e pelas oportunidades.

Para a constituição da equipa, o Simão Botelho foi quem tomou a iniciativa e juntou a Joana Jordão, o Mário Serrano e a Margarida Fonseca, todos arquitectos e amigos de longa data, bem como a Susana Ribas, arquitecta paisagista. Por unanimidade e por questões de agenda, o Simão ficou responsável pela coordenação e desenvolvimento da proposta, com base nas ideias e princípios discutidos, de forma sistemática entre todos os elementos da equipa. Estando cada um em seu lado e com diferentes disponibilidades de tempo, a internet foi fundamental para o desenvolvimento do projecto, permitindo a troca instantânea de desenhos e imagens. Um resultado dos novos tempos e tecnologias.

Para além destes arquitectos e arquitecta paisagista, fizeram também parte da equipa o Lucas Armendani (imagens virtuais 3D – escritório LAMB), a Klara Tolentino Silva (designer gráfica) e uma equipa consultora de técnicos de especialidades liderada por Daniel Maio (engenheiro de estruturas). Todos eles, dentro das suas áreas de conhecimento, foram muito importantes para que este projecto conseguisse chegar a “bom porto”.



P - Que aspectos deste concurso acharam mais desafiantes?


R - O sítio! Trata-se de um terreno expectante delimitado por uma rotunda, pela Av. Conde Riba D’Ave a Norte, e pelas traseiras de edifícios habitacionais a Sul. Propor algo que fizesse sentido e que pudesse ser um lugar dinamizador deste bairro, que se pretende inclusivo e dinâmico, era de extrema importância para nós. Encontrar caminhos para valorizar o espaço construído e a vivência humana é aquilo que nos define enquanto profissão, e aquilo que nos motiva enquanto colectivo.

Por isso mesmo, o espaço público tornou-se o tema do nosso projecto. O resto foi o normal desafio de articulação programática, de forma a que tudo funcionasse.



P - O facto de se tratar de um centro de saúde obrigou a alguma pesquisa especifica?


R - Claro, como é característico dos arquitectos quando lidam com um programa pela primeira vez. Apesar de já termos essa noção, confirmámos que um centro de saúde é um programa que, por definição, deve ser pragmático, eficiente e funcional. Tem de responder bem e de forma clara. Este projecto não é excepção. A sua inovação está no espaço exterior, bem como na vida social que este tipo de equipamento poderá gerar no espaço público envolvente.

Nesse sentido, foi muito importante a contribuição do Médico de Família Cristiano Figueiredo, que proporcionou uma visita à USF da Baixa, onde trabalha, e nos falou da sua visão inovadora inspirada em exemplos internacionais: o Centro de Saúde poderá ser simultaneamente um lugar de integração, formação e desenvolvimento de comunidades. As suas ideias iam ao encontro das nossas, ajudando a definir um programa complementar que acabou por dar origem à Praça/Jardim por nós desenhada: cafetaria, equipamentos para crianças, estação de exercício físico, zonas de estadia informais e hortas comunitárias. Utentes, população local e visitantes ocasionais poderão vivenciar e criar laços entre si neste espaço multi-funcional e multi-geracional.



P - O projecto parece virar-se para dentro, oferecendo um grande espaço aberto. É uma característica decorrente da envolvente?


R - Apesar de soar antagónico, sim, absolutamente! A nossa estratégia passou por implantar o edifício ao longo do limite Norte do terreno, libertando o espaço a Sul para a definição de uma Praça/Jardim, o mais generosa possível, entre o Pólo de Saúde e o bairro residencial pré-existente. Desta forma, o edifício proposto não só responde às suas exigências programáticas como também serve de barreira protectora do ruído e da poluição gerados pelo trânsito automóvel circundante.

Todo o edifício se articula, em conformidade com a Praça/Jardim, de modo a que se abra no seu extremo nascente sobre o cenário mais interessante, a Quinta do Barão, onde ainda permanece uma grande massa arbórea interessante de ser contemplada.

A Sul do lote, prevê-se a plantação de uma linha de árvores que conferem privacidade aos blocos habitacionais existentes e geram ambiente e sombra necessários à permanência na Praça/Jardim.



P - A arquitectura-paisagista tem um papel preponderante neste caso. De que forma ela foi pensada?


R - Para nós, a arquitectura e o paisagismo foram um só projecto. Tudo foi feito em complementaridade, de forma a que se possa gerar um espaço público dinâmico e com actividades diversificadas para todos. Pretende-se que este Jardim não seja apenas uma entrada do Pólo de Saúde, mas um centro de lazer aberto, inclusivo e disponível.

O elemento ordenador e definidor da Praça/Jardim é uma pala de desenho orgânico livre que interliga as três entradas independentes para as três unidades do Pólo de Saúde. Em conjunto com o desenho de zonas de vegetação e com a modelação do terreno, esta pala ajudou-nos a definir diferentes espaços de estadia, de lazer, de recreação infantil e de desporto, que acreditamos virem a funcionar em perfeito equilíbrio e complementaridade.



BIOGRAFIAS DOS AUTORES


Simão Botelho (Lisboa, 1987) é Mestre em Arquitectura pela FA-UTL. A sua tese de Mestrado debruça-se sobre o tema “Espaços de Transição - Preservação da Privacidade e Estímulo do Contacto Social”. Arquitecto Voluntário para a Reconstrução de Pedrógão Grande (2017-18), colaborou com Site Specific (2013-16) e Carrilho da Graça (2011-13), e no evento Lisboa Open House (Trienal de Arquitectura de Lisboa) enquanto coordenador de zona (2013-2015) e curador para o bairro dos Olivais (2016). Vencedor dos Prémios Arquitectos Agora 2016 (OA-SRS) e Secil Universidades 2010; 3º Prémio Concurso C.A.S.A (2016, AML e OA-SRS); Menção Honrosa Concurso Crisis Buster (2013, Trienal Arq. Lisboa).


Margarida Ferreira da Fonseca (Lisboa 1987) é Mestre em Arquitectura pela Universidade Lusíada de Lisboa. Finalista do Prémio Secil Universidades 2010. Colaborou com Sousa Santos (2012), Pedro Sousa (2012-13), EM2N (2013-14), Kaden Architekten (2014-16) e Gut&Shoep (2016-17). De volta a Lisboa, em 2018, juntamente com Mário David Serrano, funda o atelier DUOMA.


Mário David Serrano (Lisboa, 1987) é Mestre em Arquitectura pela Universidade Lusíada de Lisboa. Colaborou no atelier de Francisco Aires Mateus (2011-13) e com os EM2N (2013-18). Paralelamente, juntou-se à revista on-line Exquisite, em 2015, contribuindo com artigos de opinião e entrevistas. Mais tarde, em 2017, foi convidado a escrever regularmente para a Arq/a. De volta a Lisboa, em 2018, juntamente com Margarida Ferreira da Fonseca, funda o atelier DUOMA.


Joana Jordão (Lisboa, 1986) é Mestre em Arquitectura pela Universidade de Lisboa. Desenvolveu a sua prática profissional na Suíça entre 2011 e 2017. Em 2018, iniciou a sua actividade a título pessoal em Lisboa. Colaborou com os ateliers SAS Architecture (2011-12), Tardin et Pittet Architectes (2012-14) e Burckhardt+Partner (2014-17). A experiência na Suíça permitiu-lhe o desenvolvimento de competências ao nível da construção e da diversidade programática exigida pelos projetos. Entre eles destacam-se a Unidade de Cirurgia Ambulatória do Hospital de Nyon e o Centro Mundial de Tiro-ao-Arco em Lausanne, bem como projectos de habitação unifamiliar e colectiva . Foi ainda finalista do Prémio Secil Universidades em 2010.


Susana Ribas (Cascais, 1987) é Mestre em Arquitectura Paisagista pelo Instituto Superior de Agronomia. Trabalha desde 2010 no sector em Portugal. Colaborou com o atelier ARQPAIS (2011) e paralelamente desde 2010 como consultora externa em diversos gabinetes de arquitectura e engenharia. Em 2014, seleccionada pelo programa de seis meses INOV Contacto, colaborou com a empresa de projecto e construção de espaços exteriores, do Grupo Mota-Engil, Vibeiras Maroc, juntando-se à equipa em Portugal por mais 2 anos (2014-2016). Recentemente (desde 2016) colabora no atelier SYNAPS AFRICA em projectos em Marrocos e na Costa do Marfim.